domingo, 12 de julho de 2015

"Janela Indiscreta" (1954)

(Rear Window) De: Alfred Hitchcock, Com: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Georgine Darcy, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian. EUA – Suspense – Cor – Paramount – 1954.

De acordo com o dicionário da língua portuguesa, obra-prima significa “obra de grande perfeição, notável em determinado gênero; o melhor trabalho de um escritor ou um artista; obra-mestra”. Apesar de Rebeca a Mulher Inesquecível e A Sombra de Uma Dúvida ser da década de 1940 e Psicose  e Os Pássaros ser da década de 1960, foi na década de 1950 que Alfred Hitchcock (1899-1980) realizou sua sucessão de obras primas, sendo essas; Pacto Sinistro (1951), A Tortura do Silêncio (1953), Disque M Para Matar (1954), Ladrão de Casaca (1955), O Homem Que Sabia Demais (1956), O Homem Errado (1957), Um Corpo que Cai (1958), Intriga Internacional (1959) e claro, Janela Indiscreta (1954). Aclamado pela crítica e principalmente pelo público, Janela Indiscreta é um dos filmes mais famosos do mestre do suspense. Segundo o cineasta Curtis Hanson, se alguém perguntasse como são os filmes de Hitchcock, alguém que não os conhecesse, podia-se mostrar Janela Indiscreta, e de certa forma abranger todo Hitchcock, afinal, em Janela Indiscreta se vê imediatamente todo o seu brilhantismo técnico, sua capacidade de contar uma história de forma cativante e única, seu senso de humor, o voyeurismo, a sexualidade, enfim, tudo que é típico no exímio diretor inglês.

O Voyeurismo de Jeffries

A história de Janela Indiscreta nasceu em 1942, quando Cornell Woolrich (1903-1968) escreveu o conto It Had to Be Murder. Woolrich, um célebre novelista de dramas policiais, escrevia desde a segunda metade da década de 1920, todavia, foi só no inicio dos anos 1940, com o advento dos filmes que hoje classificamos como noir, que seu nome tornou-se notório na indústria fílmica. Baseados em seus romances, destacam-se os seguintes filmes; O Homem Leopardo (1943), A Dama Fantasma (1944), Morte ao Amanhecer (1946), Anjo Diabólico (1946) e Casei-me com um Morto (1950). Em 1954, ao ingressar na Paramount, Hitchcock uniu-se ao excelente roteirista John Michael Hays (1919-2008), que ficou responsável por adaptar e enriquecer o conto de Woolrich, que no original só abordava a trama principal entre o fotógrafo incapacitado e o suposto vizinho assassino, e a renomada figurinista Edith Head (1897-1981) que tinha como tarefa deixar Grace Kelly (1929-1982) ainda mais deslumbrante. Assim como o cinegrafista Robert Burks (1908-1968), John Michael Hays e Edith Head, ao longo dos anos, também contribuíram significativamente com o sucesso de diversos filmes de Hitchcock. No que se diz respeito ao elenco, James Stewart (1908-1997) e Grace Kelly foram escolhidos a dedo pelo diretor para interpretar o casal central. Stewart, que era um dos atores preferidos de Hitchcock, já havia trabalhado com esse em Festim Diabólico (1948), e Kelly em Disque M Para Matar, também em 1954. Do elenco de apoio destacam-se, a sempre ótima Thelma Ritter (1902-1969), como a enfermeira Stella, e o sempre mal encarado Raymond Burr (1917-1993), como o vizinho misterioso Lars Thorwald.

O Voyeurismo de Stella e Lisa 

Janela Indiscreta já se inicia com um toque de mestre, isto é, uma introdução digna de Hitchcock. Sem dizer uma única palavra, apenas com o movimento da câmera, em poucos segundos somos apresentados a L. B Jeffries (Stewart), um fotógrafo profissional que graças a um acidente de trabalho encontra-se provisoriamente preso a uma cadeira de rodas no seu apartamento em Nova York. Como não tem nada para fazer, a não ser jogar conversa fora com sua enfermeira Stella (Ritter), Jeff, provido de uma ótima lente teleobjetiva, passa a maior parte do tempo bisbilhotando a vida de seus vizinhos, entre eles, uma dançarina que não faz outra coisa a não ser ensaiar diversos passos e que ele apelida de senhorita Torso (Darcy); uma mulher solitária que sonha encontrar seu pretendente e que Jeff e Stella apelidam de Coração Solitário (Evelyn), um pianista (Bagdasarian) que insiste arduamente em uma nova composição e um misterioso vendedor, Lars Thorwald (Burr), que vive em crise com a sua acamada esposa. Numa noite chuvosa, após despertar com um grito, Jeffries passa a desconfiar do comportamento de Thorwald, principalmente após notar o desaparecimento de sua esposa. Com a ajuda da namorada Lisa (Kelly), e de sua enfermeira Stella, Jeffries tenta de todo modo convencer o tenente e amigo Doyle (Corey) a investigar o caso, que segundo ele, se trata de assassinato.

"Eu farejo problemas nesse apartamento"

Hitchcock sem sombra de dúvidas consegue a proeza de prender a atenção do espectador do começo ao fim do filme. Foi a sua maestria em dirigir minuciosamente a trama e as incríveis performances de todo o elenco que fizeram Janela Indiscreta se tornar o clássico absoluto que é. Sem deixar de mencionar, outros pontos altos do filme são; a sua perfeita trilha sonora (indicada ao Oscar), assinada por Franz Waxman (1906-1967) e a perfeita direção de arte, assinada por J. McMilan Johnson (1912-1990) e Hal Pereira (1905-1983). Apesar de Waxman ter composto a bela Lisa e o esfuziante Jazz da abertura, são os demais sons naturais presente na trama que nos chamam a atenção. Ao longo do filme se ouve desde canções populares e contemporâneas como; Monalisa de Nat King Cole, To See You Is to Love You de Bing Crosby e That´s Amore de Dean Martin a óperas como; M´appari Tutt´amor de Friedrich Von Flotow´s. Quanto à direção de arte, assim como em outros filmes de Hitchcock, vide Um Barco e Nove Destinos (1944) e os já citados Festim Diabólico (1948) e Disque M Para Matar (1954), toda a ação de Janela Indiscreta está confinada em um único cenário, e cá entre nós, que cenário! Por muito tempo foi um dos maiores sets já criados nos pequenos estúdios da Paramount. A autenticidade dos fundos do complexo de apartamentos é tão incrível que fica difícil acreditar que foi tudo construído em estúdio. Janela Indiscreta estreou no dia 04 de agosto de 1954 em Nova York e seu sucesso foi imediato, tanto entre a crítica e o público. Ao todo, o filme custou à Paramount cerca de U$ 1 milhão, e arrecadou mais de U$ 36 milhões só nos Estados Unidos. Anos mais tarde Jimmy Stewart assumiu que Rear Window era seu filme preferido. Também está entre os preferidos do AFI, onde ocupa a 42º posição entre os 100 melhores filmes da história. Em 1998, Christopher Reeve (1952-2004) e Daryl Hannah estrearam um remake de Janela Indiscreta para a TV americana, sobre esse, bom, sobre esse é melhor nem falar nada.


✩✩✩✩✩

Senhorita Torso
O compositor e sua ilustre visita
Os recém casados
Senhorita coração solitário
Os Thorwald
Após Lisa acreditar na tese de Jeffries
Eles tentam convencer o tenente Doyle
Jeffries e Lisa
Kelly e Stewart em foto publicitária
Jimmy Stewart, o preferido de Hitch
Grace Kelly, a preferida de Hitch
Cartaz original do filme

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

"As Estrelas que se Apagaram em 2014"

2014 foi um ano de grandes perdas, principalmente, e mais uma vez, no cenário artístico nacional. Com algumas estrelas centenárias e outras ainda desfrutando do sucesso, o ano que se encerrou foi o ano da despedida de grandes nomes, confira: 


Alicia Rhett 
Atriz (E o Vento Levou)
1 de fevereiro de 1915 / 3 de janeiro de 2014



Saul Zaentz 
Produtor (Amadeus)
28 de fevereiro de 1921 / 3 de janeiro de 2014


Maximilian Schell
Ator (O Julgamento de Nuremberg)
8 de dezembro de 1930 / 1 de fevereiro de 2014



Eduardo Coutinho 
 Diretor (Cabra Marcado Para Morrer)
11 de maio de 1933 / 2 de fevereiro de 2014



Philip Seymour Hoffman
Ator (Capote)
23 de julho de 1967 / 2 de fevereiro de 2014



Shirley Temple
Atriz (A Pequena Órfã)
23 de abril de 192810 de fevereiro de 2014



Alain Resnais
Diretor (Hiroshima Meu Amor)
3 de junho de 1922 / 1 de março de 2014



Paulo Goulart
Ator (Gabriela Cravo e Canela)
9 de janeiro de 1933 / 13 de março de 2014



José Wilker
Ator (Dona Flor e Seus Dois Maridos)
20 de agosto de 1944 / 5 de abril de 2014



Mickey Rooney
Ator (Sangue de Artista)
23 de setembro de 1920 / 6 de abril de 2014



Mary Anderson
 Atriz (A Canção de Bernadete)
3 de abril de 1918 / 6 de abril de 2014



Bob Hoskins
Ator (Uma Cilada Para Roger Rabbit)
26 de outubro de 194229 de abril de 2014



Eli Wallach 
Ator (Sete Homens e um Destino)
7 de dezembro de 1915 /  24 de junho de 2014



James Garner
Ator (Infâmia)
7 de abril de 1928 / 19 de julho de 2014


Robin Williams
Ator (Sociedade dos Poetas Mortos)
21 de julho de 195111 de agosto de 2014



Lauren Bacall
Atriz (A Beira do Abismo)
16 de setembro de 1924 / 12 de agosto de 2014



Richard Attenborough
Ator (Jurassic Park)
29 de agosto de 1923 - 24 de agosto de 2014



Hugo Carvana
Ator (Macunaíma)
(4 de junho de 1937   4 de outubro de 2014)



Mike Nichols
Diretor (Quem Tem Medo de Virginia Woolf)
6 de novembro de 1931 - 20 de novembro de 2014



Roberto Bolaños
Ator/Diretor (Chaves)
21 de fevereiro de 1929 – 28 de novembro de 2014



Luise Rainer
Atriz (Ziegfeld o Criador de Estrelas) 
12 de janeiro de 1910 - 30 de dezembro de 2014


R.I.P

domingo, 14 de dezembro de 2014

"Alma no Lodo" (1930)

(Little Caesar) De: Mervyn LeRoy, Com: Edward G. Robinson, Douglas Fairbanks Jr, Glenda Farrell, William Collier Jr, Stanley Fields. EUA – Policial – P&B - Warner Bros – 1930.

Segundo o professor de cinema Robert Sklar, havia no cinema mudo uma tradição de se fazer filmes sobre a cidade grande e os crimes das cidades grandes. O lendário diretor D.W.Griffith, por exemplo, levou às telas em 1912 o curta The Musketeers of Pig Alley, que podemos dizer, foi o primeiro filme de gangster da história do cinema. Em seguida, vieram os longas, Regeneration (1915) de Raoul Walsh, The Penalty (1920) de Wallace Worsley, Sacrifício Inútil (1927) de Frank Urson e Paixão e Sangue (1927) de Josef Von Sternberg. Depois disso, com o advento do som, os filmes em Hollywood foram se tornando produções cada vez maiores, o gênero policial não fugiu à regra, como podemos comprovar através da trilogia realizada no inicio dos anos 30 e que se tornou a precursora de todos os filmes de gângsteres existentes; Alma no Lodo (1930) de Mervyn LeRoy, Inimigo Público nº 1 (1931) de William A. Wellman e Scarface, a Vergonha de Uma Nação (1932) de Howard Hawks.

Eu quero estar aqui!

Esses três filmes, que revolucionaram o gênero, tinham em comum a critica ferrenha ao proibicionismo dos anos 20. Como se sabe, poucos anos após o termino da Primeira Grande Guerra Mundial, mais precisamente em 1920, uma emenda constitucional, o Ato Volstead ou Ato de Proibição Nacional, entrava em vigor nos Estados Unidos alegando que qualquer bebida com mais de 0,5% de teor alcoólico teria sua fabricação, venda, distribuição e consumo terminantemente proibidas. Apesar do rigor, a lei não conseguia conter o desejo dos americanos, que recorriam à clandestinidade em busca do álcool. Com isso, um novo tipo de crime passou a atender as necessidades da população através do “trabalho” de contrabandistas e de poderosos gângsteres, como o do notável ítalo-americano Al Capone. Capone, considerado o maior gângster dos Estados Unidos, por muitos anos foi o líder de uma organização criminosa dedicada ao contrabando e outras atividades ilegais durante a Lei Seca. Frio, violento e completamente sem escrúpulos, Capone controlava informantes, cassinos, destilarias e cervejarias, chegando a faturar mais de cem milhões de dólares por ano. Entre as autoridades da época, era conhecido como scarface, devido a uma cicatriz em seu rosto, portanto, qualquer semelhança com o título do filme de Hawks não é mera coincidência.

Caesar Enrico Bandello entre os chefões Pete Montana e Sam Vettori

Também não é mera coincidência com a vida de Al Capone a obra “Little Caesar” escrita em 1929 por W.R. Burnett, renomado novelista que mais tarde seria responsável pelos romances policiais “O Último Refúgio” (1941) [LEIA AQUI] e “O Segredo das Jóias” (1949). Burnett, que também se destacara como um excelente roteirista em Hollywood, assinando sucessos como o aclamado “Fugindo do Inferno” (1963), cresceu em Chicago e conheceu de perto as afliges causadas pelos gângsteres. Apesar de já ter escrito mais de cem contos e cinco romances, foi com Little Caesar que Burnett alcançou a notoriedade. Diante do sucesso, a Warner Bros, que era especialista em produzir dramas contemporâneos e sociais, adquiriu os direitos sobre o livro e imediatamente providenciou sua adaptação pra as telas. Francis Edward Faragoh, Robert N. Lee, Robert Lord e um não-creditado Darryl F. Zanuck foram os responsáveis por esse trabalho, que sem delongas, estava pronto para ser filmado. Produzido pelo competente Hall B. Wallis, cuja filmografia é repleta de obras-primas, (As Aventuras de Robin Hood, Vitória Amarga, O Falcão Maltês, A Canção da Vitória, Casablanca, etc), Alma no Lodo foi dirigido por Mervyn LeRoy, um exímio diretor que permaneceu sob contrato com a Warner até 1939, ano que se transferiu para a MGM. Com relação ao elenco, existem boatos que, a principio, Clark Gable interpretaria Rico, todavia, Jack Warner não aprovou a escolha e sugeriu Robinson, que havia acabado de filmar na própria Warner o filme policial The Widow From Chicago (1930). O já conhecido Fairbanks Jr ficou com o papel de Joe e a novata Glenda Farrell com o papel da dançarina Olga.

Rico demonstra sua força

A história de Alma no Lodo retrata a origem, o ápice e o declínio de Caesar Enrico Bandello (Robinson), um assassino frio e calculista que ao lado do amigo Joe Massara (Fairbanks Jr.) deixa os pequenos crimes do interior em busca da riqueza e do poder na cidade grande. Ambicioso e completamente prepotente, assim que chega à cidade, Enrico se une ao bando de Sam Vettori (Fields), um representante da máfia local que aparentemente vive como gerente da boate Palermo. Logo, “Rico”, como passa a ser chamado, assume o controle da gangue e rapidamente se torna um dos maiores mafiosos da cidade, enfrentando gangues rivais e a perseguição das autoridades. Em nenhum momento o filme menciona a cidade de Chicago e o proibicionismo de forma explicita, entretanto, é evidente que a trama, assim como na obra original, refere-se à vida de Al Capone.

E logo se torna o líder da organização criminosa

Ao ser lançado, apesar do sucesso entre o público, o filme dividiu opiniões e não foi muito bem recebido pela crítica. Muitos ficaram ultrajados porque um gângster estava sendo idealizado, e o público era encorajado a se identificar com ele. Como sabemos, em 1930 o código Hays ainda não havia sido criado, todavia, em 1954 quando o filme voltou as telas, para evitar problemas com a censura, a Warner providenciou o seguinte prólogo a fim de exterminar qualquer apologia aos mafiosos: "Talvez os mais fortes de todos os filmes de gângsteres “Inimigo Público nº 1 e “Alma no Lodo” tiveram um profundo efeito sobre a opinião pública. Eles mostraram violentamente os males relacionados ao Proibicionismo e sugeriram a necessidade de uma faxina nacional. Tom Powers de Inimigo Público nº 1 e Rico de Alma no Lodo não são homens, tampouco são meramente personagens: são um problema que cedo ou tarde, nós o público, teremos de resolver". Em contrapartida, é interessante ressaltar, que existem aqueles que vêem a obra de Burnett como uma alegoria aos negócios, em outras palavras, Alma no Lodo seria uma versão muito grotesca do empreendedor americano que, durante os anos 1920, achava que ia enriquecer cada vez mais a medida que a bolsa subia. É de fato uma visão bastante curiosa, no entanto, aceitável. Hoje, Alma no Lodo, Inimigo Público nº 1 e Scarface, A Vergonha de Uma Nação, são mais que grandes clássicos do cinema, juntos, esses filmes são os precursores de tudo que já foi filmado sobre gângsteres e sobre o proibicionismo americano. Se ao longo dos anos, o público pode conhecer filmes policiais como Bonnie e Clyde (1967), O Poderoso Chefão (1972), Era Uma Vez Na America (1984) e Os Intocáveis (1987) foi graças a inovação e ao trabalho de homens como Griffith, LeRoy, Wellman e Hawks, que nos primórdios do cinema criaram esse gênero que há mais de noventa anos continua em voga.

✩✩✩

Rico enfrentando as gangues rivais
O Banquete
Rico perseguindo Joe e Olga
Rico é perseguido
Eliminando os inimigos
Rico se torna alvo
Na Sarjeta
 Douglas Fairbanks Jr. em foto publicitária

Edward G. Robinson como Little Caesar

Cartaz original do filme
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